Os tipos de violência

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Klickeducação entrevista Miriam Abramovay, 21 de setembro de 2009

A violência nas escolas é um problema gerado dentro do próprio ambiente escolar. Insultos, discriminação, ciberviolência, agressões físicas e até homicídios são situações cada vez mais comuns no dia a dia de alunos e professores. Uma visão mais abrangente desse fenômeno, que abarca noções como violência “dura”, “simbólica” e “microviolência”, é defendida por Miriam Abramovay, socióloga e especialista em políticas para a juventude e em violência escolar. Formada pela Universidade de Paris, na França, e mestre em Educação pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, Miriam coordenou a pesquisa “Revelando tramas, descobrindo segredos: violência e convivência nas escolas”.

O levantamento foi realizado em 90 escolas públicas de ensino regular de Brasília e compilado num livro homônimo lançado em maio deste ano (veja o texto na íntegra no PDF ao lado). Englobando as séries finais do ensino fundamental e médio, é um protótipo da situação vivida hoje na maioria das escolas do país. De acordo com o estudo, a discriminação é a forma de violência mais presente nas escolas: 53,4% dos alunos e 52,8% dos professores afirmaram já ter presenciado essa prática, principalmente contra homossexuais e negros. A discriminação por motivos de pobreza, vestimenta, religião, características físicas e deficiência também são frequentes.

Klickeducação – A violência nas escolas é um fato. Como se define esse fenômeno?

Abramovay – A violência nas escolas vem aparecendo há alguns anos nos trabalhos acadêmicos, mas tardou para ser uma questão discutida no Brasil. Há dez anos, eu trabalho nesse tema. Realizamos a pesquisa “Revelando tramas, descobrindo segredos: violência e convivência nas escolas”, que eu considero um certo avanço. Esse levantamento traz uma novidade porque parte da demanda de uma capital como Brasília. Todas as pesquisas foram feitas lá por solicitação da Secretaria de Educação do DF, sob a coordenação da Rede de Informação Tecnológica Latino-Americana (Ritla).

Klickeducação – Quais são os tipos de violência mais comuns nas escolas brasileiras hoje em dia?

Abramovay – De acordo com o diagnóstico mostrado pela pesquisa, há a “microviolência”, que são as violências que se manifestam no cotidiano das relações sociais, expressas em xingamentos entre alunos, insultos de alunos a professores e afrontas entre professores. Existe outra violência que é a “simbólica”, ou seja, que simbolizam poder, racismo, homofobias, discriminação contra mulheres, preconceitos contra as pessoas mais pobres e que nasceram ou vieram do Nordeste. Essa violência é um conceito de Pierre Bourdieu (sociólogo francês), e é a violência que é mais difícil de ser respondida.

Klickeducação – Por que esta violência é difícil de ser respondida?

Abramovay – As pessoas não conseguem responder a essa violência porque, apesar de não ser uma violência física, é muito forte, já que carrega um estigma social negativo. A violência “simbólica” pode provocar consequências graves nas relações de amizade e no processo de aprendizagem. A outra violência é a “dura”, que consta no Código Penal e está relacionada, nas escolas, à violência física e às manifestações de cunho sexual, como o estupro. No entanto, o racismo não é uma violência física e também consta no Código Penal. Então, esses tipos de violência se permeiam.

Klickeducação – Quais são as causas do crescimento da violência nas escolas nas últimas décadas?

Abramovay – Existe a violência que acontece fora das escolas, como a presença de armas e, por outro lado, a situação socioeconômica complicada de algumas escolas. As escolas produzem as suas próprias violências. A violência na escola se deve ao “clima escolar”, quer dizer, não vem de fora para dentro da instituição de ensino. Esse fator também acontece, mas as escolas são responsáveis pela reprodução de uma violência interna.

Klickeducação – A violência nas escolas é um fenômeno vivenciado em países como Argentina, França, Estados Unidos, Inglaterra. Isso é o reflexo de uma sociedade violenta?

Abramovay – Isso acontece na América Latina e é um fenômeno globalizado, mas cada país tem suas características. Na França, a violência nas escolas está ligada à questão da migração; nos Estados Unidos acontecem matanças a grupos por estudantes enfurecidos; na Noruega é outra coisa. Enfim, as relações sociais são diferentes.

Klickeducação – Como os alunos convivem com as situações de violência na escola?

Abramovay – A violência é um tema banalizado hoje na sociedade. Os alunos convivem de forma banalizada e também de uma maneira sofrida. Além dos estudantes violentos, há também os que reclamam da violência dos professores. Eles são alvo de xingamento, agressão física, de atitudes arbitrárias. Há professores que colocam o aluno para fora da sala de aula sem razão, não consideram seu ponto de vista e não acreditam nele.

Klickeducação – Como melhorar a relação de confiança entre professores, alunos e famílias?

Abramovay – Temos de levar em conta o todo da escola, senão a culpa recai apenas sobre os alunos e as famílias. Temos de desconstruir a ideia de que os estudantes vêm de uma família desestruturada. A escola recebe pessoas, não exatamente boas ou más, e tem como função educá-las. O espaço escolar é um parâmetro para essas pessoas desenvolverem sua cidadania, e o período de três a quatro horas tem de ser bem aproveitado.

Klickeducação – Aumentar a carga horária ajudaria a melhorar o aproveitamento dos estudantes?

Abramovay – Em geral, as escolas não escutam os alunos, mas sempre dão ouvidos aos adultos e à mídia. Por exemplo, não se pergunta se os alunos querem ficar pela manhã e à tarde na escola, se isso é bom para eles. Geralmente, essas experiências são muito positivas. Em Nova York, a violência entre estudantes aumentam entre 4 e 5 horas da tarde, depois que eles saem das escolas. Brasília está propondo uma escola em tempo integral através do programa Educação Integral, para a 1ª série das escolas da rede municipal.

Entre os muros da escola

Klickeducação – Qual deve ser a atitude de professores e gestores diante da violência escolar?

Abramovay – Eles se sentem acuados, têm medo e, por isso, não sabem o que fazer. Mas não há uma postura única. Muitos acham que melhorias podem ser feitas, isso é algo que está se discutindo. Há várias recomendações. O primeiro passo é fazer um diagnóstico sobre a violência no ambiente escolar. Já temos levantamentos sobre a qualidade do ensino. É preciso combinar o diagnóstico do ensino com o da violência nas escolas, esses dados associados irão servir como parâmetro para as políticas públicas. No Brasil, não existe um diagnóstico do MEC sobre a violência nas escolas. O Distrito Federal foi o primeiro a realizar uma pesquisa sobre essa questão. A segunda recomendação é que se mude a estrutura das escolas. É preciso que haja mais participação dentro do ambiente escolar e que se adote uma política pública baseada no diagnóstico.

Klickeducação – Como mudar essa estrutura?

Abramovay – Hoje temos uma educação autocêntrica, baseada em modelos restritivos e punitivos, que não promovem avanços nas escolas. As escolas devem dar mais voz aos jovens, para que eles possam falar sobre esse espaço, democratizando as relações sociais dentro do ambiente escolar. Essa democratização permitirá que se discutam as regras da escola com alunos e pais. O que se pode fazer? Vale a pena para os jovens organizar um grêmio? Trazer o hip hop ou outra atividade cultural é bom? O importante é a escola abrir o diálogo com os alunos e suas famílias. Programas de mediação escolar de conflitos também são produtivos, se puderem ser levados para dentro da escola. É fundamental que as escolas possam “derrubar seus muros”, abrir as “portas do seu olhar” para a realidade do cotidiano.

Klickeducação – Até que ponto a violência contribui para evasão escolar?

Abramovay – O clima escolar contribui muito para que as pessoas frequentem ou não a escola. A violência pode até ser a própria forma de ensinar dentro da escola. Uma recente pesquisa aponta que 30% dos jovens de classe média deixam as escolas porque não têm mais interesse em estudar.

Klickeducação – As tecnologias, como câmeras e internet, podem ajudar a combater a violência?

Abramovay – O uso das novas tecnologias tem avançado muito. Mas tem se utilizado a internet de uma forma negativa. É o que chamamos de ciberviolência. Muitas vezes a agressão na escola continua na internet, de alunos para alunos, e também entre alunos e professores. O uso da internet tem de ser discutido nas escolas. O mau uso causa humilhação, já que o alcance não é pequeno, hoje a difusão é globalizada. Basta ver no You Tube. Por outro lado, as tecnologias que estão sendo utilizadas são fundamentais. As lan houses são um passo excepcional.

Klickeducação – De acordo com a pesquisa, qual foi a porcentagem de ciberviolência nas escolas?

Abramovay – Entre os alunos, 37% dizem que já sofreram esse tipo de violência e 17,5% admitem que já a praticaram. As agressões mais comuns são xingamentos, ameaças e fazer se passar por outra pessoa. Há casos de professores insultados por alunos, divulgação de fatos pessoais, chantagem e invasão de e-mails.

Klickeducação – Qual é o papel da polícia no combate à violência nas escolas?

Abramovay – A polícia tem um papel de segurança pública, fora da escola.

Klickeducação – O que gera a intolerância às diferenças?

Abramovay – A não aceitação da diversidade. Não se tolera o outro por ser diferente. A escola tem de trabalhar muito essa questão. A sociedade é intolerante e a escola reproduz esse modelo. A escola é homofóbica porque a maioria dos profissionais que nela trabalha não aprendeu o que é homofobia. A escola fica num ciclo onde se produz e se reproduz.

Klickeducação – Quais são os preconceitos mais frequentes nas escolas?

Abramovay – A homofobia, o racismo, o preconceito contra deficientes, de gênero, classe social, local de moradia, contra nordestinos, negros, vestimenta. Desde maio, estamos ministrando, pela Secretaria de Educação do Distrito Federal, cursos de formação continuada para 640 professores da rede pública sobre os temas violência, discriminação, relação com alunos, juventude, ética. O programa tem duração de nove meses e carga de 180 horas, 140 presenciais e 40 horas indiretas. No ano que vem pretendemos dobrar o número de participantes, no segundo curso, que terá 200 horas. O conteúdo foi elaborado como uma resposta à demanda dos professores que estavam buscando novas formas de educar.