Revista Educação
Quarta-feira, 09 de setembro de 2009
por Rachel Bonino


A boa notícia? O inverso também pode acontecer

Pigmalião e sua Galateia: na psicologia, sinônimo do indivíduo que se apaixona pelo objeto de desejo que ele mesmo construiu

Reza o mito que o hábil escultor Pigmalião, desiludido com as mulheres, foi viver só. Para não ficar desacompanhado de tudo, esculpiu uma figura feminina que atendesse ao seu ideal de beleza. Tamanha era sua destreza, que se apaixonou pela própria obra, de tão bela, nomeando-a Galateia. E rogou à deusa Afrodite que providenciasse o encontro com uma mulher como aquela. Foi atendido com a conversão da obra de pedra em carne e osso. Foi com ela, então, que Pigmalião se casou e teve um filho, Pafos. É o que diz a lenda cipriota de Pigmalião e Galateia, registrada pela primeira vez numa história de Chipre, escrita no século 3 antes de Cristo, segundo a revista Graecia Antiqua.

A psicologia se apropriou da história e definiu o "efeito Pigmalião" como aquele em que o indivíduo se apaixona pelo objeto de desejo que ele mesmo construiu. Em uma de suas colunas, o psicanalista Contardo Calligaris fez adequação interessante para o universo escolar. "Quando os professores esperam um grande progresso de seus alunos, eles progridem duas vezes mais rapidamente. O desempenho do aluno é proporcional às expectativas do professor", assinalou. Como não vibrar, então, com a possibilidade de que seu processo de aprendizagem pode render resultados tão satisfatórios?

A professora Alessandra da Silva, de Caçapava (SP), provou na prática a transposição do mito de Pigmalião. Em 2008, ela envolveu alunos da 1ª série da Emef Edmir Viana de Moura no estudo da vida e de obras de Hans Christian Andersen, autor dinamarquês conhecido por seus clássicos infantis: O patinho feio, O soldadinho de chumbo, entre outros. A partir daí, as crianças foram estimuladas a produzir um livro coletivo de contos. Na segunda etapa, todos tomaram contato com as obras de outros mestres da literatura infantil para depois produzir um livro individual.

Para Alessandra, o avanço nos níveis de letramento e alfabetização foram claramente perceptíveis tanto na conversa com as crianças como em suas produções e leituras. "No início do ano tínhamos um número grande de pré-silábicos e silábicos sem valor sonoro na sala. Todos conseguiram avançar e hoje a maioria encontra-se no nível alfabético e aprimorando seus conhecimentos ortográficos. Embora existam diferenças nos avanços, ninguém permaneceu no nível em que estava no início do ano", conta.

Ela também recorda que, inicialmente, as crianças não se preocupavam com a autoria dos textos lidos. "Agora, essa é a primeira pergunta que fazem quando uma leitura é sugerida", conta a docente há 13 anos.

Os bons frutos colhidos com a experiência - que, inclusive, motivaram a criação de outras atividades semelhantes aplicadas em outra turma, da 3ª série - colocaram o projeto Alfabetizando e letrando com os grandes mestres da literatura infantil entre os 31 ganhadores do 4º Prêmio Professores do Brasil, promovido no ano passado pelo Ministério da Educação. Esse reconhecimento expõe o direcionamento positivo de Alessandra ao efeito Pigmalião - que ela verdadeiramente vivenciou: "Professores que acreditam que podem ensinar acreditam também na capacidade dos seus alunos de aprender", concorda.

Para JoséErnesto Bologna, psicólogo especialista em desenvolvimento aplicado à educação, assim como Alessandra, o professor precisa almejar que o seu aluno adquira mais do que conhecimento do processo de aprendizagem: "O verdadeiro ganho é a autoconfiança cognitiva do aluno, ou seja, a consolidação da sua autoestima intelectual como um aprendiz competente e capaz. Essa consolidação não é apenas intelectual, mas também socioafetiva. Todos nós já sentimos a deliciosa emoção que se manifesta na relação [entre aluno-professor]: 'Eu estou sentindo o poder e a beleza de compreender, e meu mestre está satisfeito comigo, olhando-me com olhos de admiração'", diz.

Num cenário adverso, os docentes não podem esquecer que são personalidades com vocação humanista, lembra: "São originalmente capazes de se emocionar com as aquisições dos alunos. Podem até se distanciar, ou mesmo perder essa chama inicial ao longo de seus desapontamentos, mas são originalmente apaixonados pela construção do saber como liberdade de ser", pontua.

Por outro lado...

O grande porém do efeito Pigmalião é que, na mesma proporção, também se pode esperar o fracasso do alunado, quando professores têm baixa expectativa em relação ao futuro escolar dos jovens.

Aliás, a descrença do corpo docente ficou à mostra em pesquisas recentes. Divulgada em maio último, e desenvolvida pela Rede de Informação Tecnológica Latino-Americana (Ritla), em parceria com a Secretaria de Educação do Distrito Federal (SEDF), o estudo Violência e convivência nas escolas trouxe dado impressionante. A maioria dos cerca de 10 mil jovens, de 84 escolas da rede pública de ensino, quando indagados sobre seu futuro, responderam que acreditavam que iriam continuar a estudar. A surpresa da pesquisa foi a constatação de que grande parte dos 1.300 professores e diretores - pelo contrário - acreditavam que os alunos iriam abandonar os estudos. "Os professores não creem numa perspectiva de futuro do alunado. Dessa forma, a profecia se auto- cumpre", analisa Miriam Abramovay, coordenadora da pesquisa.

Para a especialista, dois motivos contribuem fortemente para essa resposta negativa do professor: a dificuldade que ele encontra para lidar com a escola massificada, composta por jovens pobres; e também o preconceito com o alunado que está vivenciando a adolescência. "O docente não é preparado na faculdade para lidar com esse perfil de aluno real. Isso contribui para que tenha uma visão negativa das classes sociais e da juventude de uma forma ampla", explica.

Mas o professor tem consciência disso? Para Miriam, não. "Ele sempre atribui a maioria do caos escolar a fatos externos - a rebeldia do aluno, a família desestruturada, a política pública ineficaz. O que não deixa de ser fato. A questão é o docente não fazer uma auto-análise para saber se ele também não faz parte do problema", afirma.

A consequência dessa intransigência docente em relação às futuras gerações é gravíssima na visão de Bologna, que propõe o neologismo "generacídio cognitivo", para exemplificar a destruição intelectual em massa de algumas gerações: "É evidente que os alunos refletem as expectativas que colocamos sobre eles. O problema, porém, é que ou colocamos expectativas enormes sem os meios, os cenários, para suas aquisições pela construção cognitiva, ou colocamos expectativas baixas demais por desatenção, cansaço, descaso, enfim desânimo, ou desrespeitamos a curiosidade espontânea do aluno, ignorando os movimentos naturais de sua mente".

Culpa do professor?

Outra ONG, a Ação Educativa, divulgou mais um resultado alarmante do relatório final da pesquisa Que ensino médio queremos?, que ouviu 880 estudantes de cinco escolas estaduais públicas da zona leste de São Paulo, e depois, numa segunda etapa, também questionou professores. Perguntou-se aos estudantes se os professores se orgulham de seus alunos? Para 43% dos jovens, isso ocorre raramente ou nunca. Em uma das escolas, essa porcentagem chegou aos 58%. Também são os estudantes do 3º ano do ensino médio que apresentam índices mais negativos com relação a esse quesito: 48%.

A própria pesquisa conclui: "A expectativa que os educadores nutrem sobre os educandos é um fator crucial para o desenvolvimento da aprendizagem, afinal, sem esperar muito dos alunos, provavelmente os professores não irão desafiá-los o suficiente para aprenderem, o que deve resultar em baixos níveis de aproveitamento. Além disso, em contato com uma baixa expectativa por parte de seus professores, os estudantes tendem a se sentir desmotivados e desmobilizados".

Na visão de Raquel Souza, uma das responsáveis pela pesquisa, esse resultado compromete todo o processo educacional. "Se professores não possuem motivo para se orgulhar de seus alunos, muito provavelmente também não têm muitas expectativas com relação a eles. A expectativa de um professor é fundamental para a definição daquilo que ele está disposto a realizar com sua turma de alunos, do quanto está disposto a desafiá-los", diz.

Apesar desse fato, Raquel não acha justo apontar o professor como maior responsável pelas mazelas da educação. Por isso, faz questão de pinçar outro dado importante do estudo: quando inquirido sobre seus pares, a percepção dos alunos é bem mais crítica do que a avaliação que fazem dos professores: para 39% dos estudantes, seus colegas raramente ou nunca são disciplinados, e para 33% raramente ou nunca se mostram interessados na escola. "Por isso, o entendimento da avaliação sobre o orgulho dos professores não pode estar apartado da percepção que os estudantes fazem de seu envolvimento e disposição com a instituição escolar. Eles possuem uma percepção negativa sobre o engajamento dos estudantes na escola e, certamente, isso reverbera em suas hipóteses de como os professores lidam com eles."

O professor Lino de Macedo, do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP), conjectura as possíveis causas para um cenário de tanta pressão para o professor. Para isso, lembra das mudanças pelas quais passou o ambiente escolar nos últimos 50 anos: "Antes tida como um local restrito aos que detinham inteligência, riqueza e tempo, a escola passou a acolher toda a população a partir do entendimento de educação como direito do cidadão e dever do Estado. Antes, se o aluno não aprendia, não seguia uma conduta, ele ia sendo, pouco a pouco, excluído da escola. Hoje isso não pode acontecer. O professor precisa conviver com todo tipo de aluno. Ele é o sucesso ou não do professor, porque ele é o seu desafio", analisa.

Para o especialista, também os resultados insatisfatórios em avaliações de desempenho do aluno - Prova Brasil, Saresp, Enem etc. - significam um dedo a mais apontado para a cara do docente. "Hoje, as expectativas de aprendizagem são muitos fortes no sentido externo. Os pais têm expectativa de que os filhos aprendam na escola; o Estado, por investir em educação, tem uma expectativa de que as crianças efetivamente aprendam. Já o professor, logicamente, tem uma expectativa de que o resultado da sua aprendizagem apareça. Assim, o aluno quase vira um objeto persecutório do professor", diz.

Desmotivação revisada

Apesar das jornadas extenuantes, da hora-aula malpaga, e do relacionamento complicado com seu aluno, o professor poderia assumir sua parcela de responsabilidade no processo educativo. E quem indica isso não é nenhum especialista em educação, mas a professora Alessandra Silva. "Para manter a motivação, sempre faço uma autoanálise do meu trabalho e, quando percebo que algo não está saindo como o esperado, vou atrás de fontes de informações que possam me ajudar a aprimorar minhas habilidades de ensino. Dessa forma, ensinar torna-se um desafio satisfatório", diz.

Seguindo essa linha de procurar saídas, Cláudia Petri, gerente de projetos do Centro de Estudos e Pesquisa em Educação Cultura e Ação Comunitária, o Cenpec, indica que, juntos, escola, aluno e professor "destrinchem suas expectativas de aprendizagem." A entidade atua para facilitar essa ação mais especificamente com os professores. "Só é possível mudar o pensamento depois de refletir."

Trata-se de uma grande mudança na rotina escolar jáque a escola oferece pouco espaço para que essas expectativas e projetos futuros possam ser discutidos publicamente, na avaliação de Raquel Souza, da Ação Educativa, que também atua no apoio de redes públicas de ensino. "Há certa ausência de reflexão nas escolas a respeito da fase de vida dos estudantes - a juventude -, e pouco diálogo entre as práticas educativas e as vivências juvenis. Esse processo é fundamental para a construção de sentidos para a escolarização tanto para professores como para alunos. É impossível pensar nas expectativas de êxito e de projetos futuros sem fazer da escola um espaço de discussão e formulação dessas questões."

O problema da expectativa éque ela pode ser formada com base em um objetivo impossível. Por esse motivo, na conversa e reflexão sobre aprendizagem o professor precisa deixar claro o que entende como dinâmica produtiva dentro de sala de aula, na visão de Lino de Macedo. "Alunos e professores precisam de mais comunicação para igualar expectativas: cada um precisa dizer o que espera do outro. O problema hoje é que ninguém conversa para entender isso. Se eu não saio da queixa e não entro na explicação das regras do jogo, nada vai mudar." É o passo inicial rumo à retomada da relação de afeto entre professor-aluno. Quem sabe assim os professores não voltem a receber maçãs...