Entrevistas
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Entrevista com Miriam Abramovay, socióloga e pesquisadora da Rede de Informação Tecnológica Latinoamericana e Cláudio de Moura e Castro, economista, escritor e especialista em Educação para a CBN, 07 de fevereiro de 2010. Confira aqui o áudio da entrevista. |
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Entrevista com Miriam Abramovay, socióloga e pesquisadora, para a CBN, 19 de novembro de 2009 Confira aqui o audio da entrevista. Miriam Abramovay fala que universidade fez julgamento moral e perdeu chance de discutir o que motivou violência contra Geisy Entrevista de Miriam Abramovay para a Terra TV, 9 de novembro de 2009 "Uniban divide alunas entre santas e prostitutas", diz socióloga Veja o video da entrevista. Violência escolar: armas, drogas e traficantes não são os principais problemas Observatório da educação entrevista Miriam Abramovay, 22 de setembro de 2009. O plano é fundamentado na instalação de câmeras nas escolas e no deslocamento de um oficial da Polícia Militar para trabalhar na Secretaria de Estado da Educação (leia aqui). Em continuidade ao tema, Miriam Abramovay, pesquisadora da Rede de informação tecnológica latino-americana (Ritla), concedeu entrevista sobre sua pesquisa relativa à violência nas escolas do Distrito Federal (DF). O material foi utilizado pelo poder público local na elaboração de políticas relacionadas ao tema (leia aqui a publicação). Miriam - Por tudo o que vemos, a partir das experiências internacionais, esse tipo de medida dá pouco resultado. É preciso pensar em medidas preventivas. Em primeiro lugar, porque provavelmente vão quebrar, é difícil que as câmeras sobrevivam. Além disso, cria-se um sentimento de espionagem nos jovens, o que para eles é muito degradante. E qual é a tendência de um adolescente ou jovem ao saber que está sendo espionado? É fazer ainda mais, tentar entrar de forma clandestina para mostrar às pessoas que consegue driblar, etc. Não é uma medida preventiva, então é complicado. Colocar câmera é muito fácil. Mas a literatura internacional diz que não adianta. OE - Qual conceito de violência utilizado na pesquisa realizada nas escolas do DF? Miriam - A violação dos direitos humanos das vítimas e a falta de princípios civilizatórios são construções sociais. O que é violento hoje, na nossa sociedade, pode não ser daqui a 20 anos, e vice-versa. É um fenômeno muito complexo, existem muitas facetas e muitas percepções de violência. Por isso, nos estudos sobre violência, é preciso partir do que o sujeito acha que é violento, não daquilo que a gente acha. Miriam - A violência dura, a simbólica e, principalmente, a microviolência, relacionada a xingamentos, agressões verbais, homofobia, racismo e, inclusive, a cyberviolência. Miriam - O fenômeno da cyberviolência tem proliferado na sociedade. Ele permite certo anonimato, pode-se colocar fotos e vídeos sem se dizer quem é o autor. São práticas muitas vezes agressivas, danosas, em que as pessoas se sentem muito humilhadas, principalmente quando filmam certos tipos de brigas, xingamentos ou até mesmo estupro, e colocam na rede, uma humilhação globalizada. Miriam - As pessoas dizem que já viram consumo e tráfico. Mas sabemos que a escola é um espaço democrático, onde todos entram. Então, pode entrar traficante, filho de traficante e irmão de traficante, porque todo mundo pode entra para a escola. Mas isso é uma violência exterior à escola. É a chamada violência dura, mas vem de fora para dentro, a escola recebe essa violência. Miriam - No final de nossa publicação há uma série de recomendações de políticas públicas. A primeira delas leva em conta uma grande demanda dos professores para discutir esses temas, pois não tiveram essa oportunidade em suas formações. Então, a Ritla está fazendo um curso de 180 horas, para 800 professores. Miriam - A homofobia é o fenômeno que mais se vê na escola. É impressionante a porcentagem de alunos, alunas e professores que percebem a homofobia na escola. Tem uma tabela que chama muito a atenção que pergunta quem você não gostaria de ter como colega de sala: homossexual, pessoa pobre, negra, dentre outros. Quase 50% dos homens dizem não querer ter um homossexual em sua sala. Dentre as meninas, 15% o dizem. Quando perguntamos se já sofreram, evidentemente abaixa muito, já sofri é algo difícil de dizer. Outro número que chama a atenção: 2% dos professores não querem ter aluno negro. Isso é muito. Nesse fenômeno, todo percentual é muito gritante. Miriam - Perguntamos se já viram alguém tentar beijar uma pessoa na boca à força, tocar, tirar a roupa e forçar a relação sexual. Dentre os alunos, 8,3% já viram alguém forçar a ter relação sexual com alguma aluna. Existe a expressão passar a mão, por exemplo. Reclamam de professores que tentam tocar, chamam para sair, etc. Essas questões acontecem, mas é muito pouco falado, a escola finge que nada vê. Miriam - Na pesquisa não, mas na devolutiva os professores mencionaram a necessidade de ter psicólogo. Como se houvesse a possibilidade do psicólogo salvar a escola, como se os problemas fossem psicológicos. Miriam - A primeira recomendação é fazer exatamente o que fez o Distrito Federal: a política pública não pode ser embasada no achismo, mas no conhecimento de realidade. Os tipos de violência Klickeducação entrevista Miriam Abramovay, 21 de setembro de 2009 Klickeducação – A violência nas escolas é um fato. Como se define esse fenômeno? Abramovay – A violência nas escolas vem aparecendo há alguns anos nos trabalhos acadêmicos, mas tardou para ser uma questão discutida no Brasil. Há dez anos, eu trabalho nesse tema. Realizamos a pesquisa “Revelando tramas, descobrindo segredos: violência e convivência nas escolas”, que eu considero um certo avanço. Esse levantamento traz uma novidade porque parte da demanda de uma capital como Brasília. Todas as pesquisas foram feitas lá por solicitação da Secretaria de Educação do DF, sob a coordenação da Rede de Informação Tecnológica Latino-Americana (Ritla). Abramovay – De acordo com o diagnóstico mostrado pela pesquisa, há a “microviolência”, que são as violências que se manifestam no cotidiano das relações sociais, expressas em xingamentos entre alunos, insultos de alunos a professores e afrontas entre professores. Existe outra violência que é a “simbólica”, ou seja, que simbolizam poder, racismo, homofobias, discriminação contra mulheres, preconceitos contra as pessoas mais pobres e que nasceram ou vieram do Nordeste. Essa violência é um conceito de Pierre Bourdieu (sociólogo francês), e é a violência que é mais difícil de ser respondida. Abramovay – As pessoas não conseguem responder a essa violência porque, apesar de não ser uma violência física, é muito forte, já que carrega um estigma social negativo. A violência “simbólica” pode provocar consequências graves nas relações de amizade e no processo de aprendizagem. A outra violência é a “dura”, que consta no Código Penal e está relacionada, nas escolas, à violência física e às manifestações de cunho sexual, como o estupro. No entanto, o racismo não é uma violência física e também consta no Código Penal. Então, esses tipos de violência se permeiam. Abramovay – Existe a violência que acontece fora das escolas, como a presença de armas e, por outro lado, a situação socioeconômica complicada de algumas escolas. As escolas produzem as suas próprias violências. A violência na escola se deve ao “clima escolar”, quer dizer, não vem de fora para dentro da instituição de ensino. Esse fator também acontece, mas as escolas são responsáveis pela reprodução de uma violência interna. Abramovay – Isso acontece na América Latina e é um fenômeno globalizado, mas cada país tem suas características. Na França, a violência nas escolas está ligada à questão da migração; nos Estados Unidos acontecem matanças a grupos por estudantes enfurecidos; na Noruega é outra coisa. Enfim, as relações sociais são diferentes. Abramovay – A violência é um tema banalizado hoje na sociedade. Os alunos convivem de forma banalizada e também de uma maneira sofrida. Além dos estudantes violentos, há também os que reclamam da violência dos professores. Eles são alvo de xingamento, agressão física, de atitudes arbitrárias. Há professores que colocam o aluno para fora da sala de aula sem razão, não consideram seu ponto de vista e não acreditam nele. Abramovay – Temos de levar em conta o todo da escola, senão a culpa recai apenas sobre os alunos e as famílias. Temos de desconstruir a ideia de que os estudantes vêm de uma família desestruturada. A escola recebe pessoas, não exatamente boas ou más, e tem como função educá-las. O espaço escolar é um parâmetro para essas pessoas desenvolverem sua cidadania, e o período de três a quatro horas tem de ser bem aproveitado. Abramovay – Em geral, as escolas não escutam os alunos, mas sempre dão ouvidos aos adultos e à mídia. Por exemplo, não se pergunta se os alunos querem ficar pela manhã e à tarde na escola, se isso é bom para eles. Geralmente, essas experiências são muito positivas. Em Nova York, a violência entre estudantes aumentam entre 4 e 5 horas da tarde, depois que eles saem das escolas. Brasília está propondo uma escola em tempo integral através do programa Educação Integral, para a 1ª série das escolas da rede municipal. Abramovay – Eles se sentem acuados, têm medo e, por isso, não sabem o que fazer. Mas não há uma postura única. Muitos acham que melhorias podem ser feitas, isso é algo que está se discutindo. Há várias recomendações. O primeiro passo é fazer um diagnóstico sobre a violência no ambiente escolar. Já temos levantamentos sobre a qualidade do ensino. É preciso combinar o diagnóstico do ensino com o da violência nas escolas, esses dados associados irão servir como parâmetro para as políticas públicas. No Brasil, não existe um diagnóstico do MEC sobre a violência nas escolas. O Distrito Federal foi o primeiro a realizar uma pesquisa sobre essa questão. A segunda recomendação é que se mude a estrutura das escolas. É preciso que haja mais participação dentro do ambiente escolar e que se adote uma política pública baseada no diagnóstico. Abramovay – Hoje temos uma educação autocêntrica, baseada em modelos restritivos e punitivos, que não promovem avanços nas escolas. As escolas devem dar mais voz aos jovens, para que eles possam falar sobre esse espaço, democratizando as relações sociais dentro do ambiente escolar. Essa democratização permitirá que se discutam as regras da escola com alunos e pais. O que se pode fazer? Vale a pena para os jovens organizar um grêmio? Trazer o hip hop ou outra atividade cultural é bom? O importante é a escola abrir o diálogo com os alunos e suas famílias. Programas de mediação escolar de conflitos também são produtivos, se puderem ser levados para dentro da escola. É fundamental que as escolas possam “derrubar seus muros”, abrir as “portas do seu olhar” para a realidade do cotidiano. Abramovay – O clima escolar contribui muito para que as pessoas frequentem ou não a escola. A violência pode até ser a própria forma de ensinar dentro da escola. Uma recente pesquisa aponta que 30% dos jovens de classe média deixam as escolas porque não têm mais interesse em estudar. Abramovay – O uso das novas tecnologias tem avançado muito. Mas tem se utilizado a internet de uma forma negativa. É o que chamamos de ciberviolência. Muitas vezes a agressão na escola continua na internet, de alunos para alunos, e também entre alunos e professores. O uso da internet tem de ser discutido nas escolas. O mau uso causa humilhação, já que o alcance não é pequeno, hoje a difusão é globalizada. Basta ver no You Tube. Por outro lado, as tecnologias que estão sendo utilizadas são fundamentais. As lan houses são um passo excepcional. Abramovay – Entre os alunos, 37% dizem que já sofreram esse tipo de violência e 17,5% admitem que já a praticaram. As agressões mais comuns são xingamentos, ameaças e fazer se passar por outra pessoa. Há casos de professores insultados por alunos, divulgação de fatos pessoais, chantagem e invasão de e-mails. Abramovay – A polícia tem um papel de segurança pública, fora da escola. Abramovay – A não aceitação da diversidade. Não se tolera o outro por ser diferente. A escola tem de trabalhar muito essa questão. A sociedade é intolerante e a escola reproduz esse modelo. A escola é homofóbica porque a maioria dos profissionais que nela trabalha não aprendeu o que é homofobia. A escola fica num ciclo onde se produz e se reproduz. Abramovay – A homofobia, o racismo, o preconceito contra deficientes, de gênero, classe social, local de moradia, contra nordestinos, negros, vestimenta. Desde maio, estamos ministrando, pela Secretaria de Educação do Distrito Federal, cursos de formação continuada para 640 professores da rede pública sobre os temas violência, discriminação, relação com alunos, juventude, ética. O programa tem duração de nove meses e carga de 180 horas, 140 presenciais e 40 horas indiretas. No ano que vem pretendemos dobrar o número de participantes, no segundo curso, que terá 200 horas. O conteúdo foi elaborado como uma resposta à demanda dos professores que estavam buscando novas formas de educar. |